domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crónica: Perdes(-te) (n)o tempo

Queria ser um polvo, mas não sou. O tempo acontece incessantemente, à mesma velocidade com que sempre aconteceu, esquecendo-se da multiplicidade de realidades paralelas que não podem requerer um minuto de pausa ou cinco minutos de rapidez e que, no mesmo mundo, se conseguem pintar de um vasto número de cores diferentes.
São oito horas da manhã em qualquer relógio para que se olhe agora e o sol brilha com toda a sua luz e cor. O António, de Celorico de Basto, lavra a terra assertivamente já há duas horas. O John “British” começa a receber telefonemas trabalhosos. A Marrianne conta já, sem querer, três metros para chegar à faculdade. A Teresinha turista viaja por onde sonhou ao ouvir histórias de encantar. E o Pedrinho de 2 meses chora ofegantemente pela ausência da sua fonte de alimento.
Estão quase a bater as doze badaladas diurnas para todo o Mundo, mas nem todos estão de acordo acerca do grau de incidência do sol. A Maria Amélia, de uma “terrinha” qualquer a norte de Celorico de Basto, desespera pela sua reforma na interminável fila da segurança social. Os seguranças da rainha Isabel II sentem longinquamente o conforto da cadeira da mesa do almoço. A Jaqueline adivinha já uma rutura no músculo facial de tanto simpatizar com os visitantes do Museu de Louvre. O Simão mais trabalhador do que turista observa Nova Iorque pela janela entediante da sala de reuniões. E o pequeno Jing chora silenciosamente por não saber até que horas terá que trabalhar.
Afinal, o que é o tempo e o que é que ele faz com a verme condição de ser humano? O tempo corre para quem o quer parar. O tempo para para quem o quer correr. Será que é o tempo que nos deturpa ou somos nós que deturpamos o tempo?
São oito horas da noite, aqui e ali. A lua ilumina os lúgubres caminhos de regresso daqueles que já não veem o que emana do lampião. E parece que, como por magia, o tempo inaugura o seu próprio equilíbrio, entrelaçando e invertendo as cores, o brilho e as respetivas intensidades.
Sim, é noite, mas é tão possível. Um arco-íris incandescente para quem o vê sem sol e sem chuva como uma trovoada tenebrosamente ignescente: A Maria Amélia alegra-se gritando ao ver o seu filho a chegar da guerra enquanto o António grita chorando por não voltar a ver o seu. Os seguranças da rainha Isabel II abandonam a apatia pela emoção do carinho da mulher, já o John “British” cria a apatia ao reparar no abandono da amada. A Jaqueline, num simples jantar de amigos, recebe a notícia de que é milionária e enquanto se via livre para realizar os seus sonhos, nesse mesmo preciso instante, Marrianne via-se aprisionada debaixo do metro. O Simão, no meio do turismo trabalhado, entrega-se ao spa do leito mais próximo e a Teresinha trabalha contra o sono com receio dos “monstros” turistas. Porém, o pequeno Jing continua sem saber quando parará, e o Pedrinho ainda chora, pois ambos já sabem que há alimento que nunca vem.
Luzes. Cor.Tempo. Emoções. “E tudo e tudo e tudo” que pode acontecer enquanto pestanejamos e que nunca vamos chegar a saber ou auxiliar porque não somos polvos. Seremos, então, piores do que eles. Com a mesma “brandura” e “mansidão”, nem a incomum qualidade do raciocínio nos fará tingir devidamente todos aqueles que se cruzarão na esquina da nossa vida.
O que levamos daqui? O egoísmo: corrupto de todos os mundos pessoais.

2 comentários:

  1. Já sabes o quanto adoro esta crónica. E a ti. Sabes o quanto te adoro a ti.

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  2. Põe o maximo de ti no pouco que faças! Publica, fala, divaga! Cá estaremos para te apoiar! Bjs

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