Queria ser um polvo, mas não sou. O tempo acontece incessantemente, à mesma velocidade com
que sempre aconteceu, esquecendo-se da multiplicidade de realidades paralelas
que não podem requerer um minuto de pausa ou cinco minutos de rapidez e que, no
mesmo mundo, se conseguem pintar de um vasto número de cores diferentes.
São oito horas
da manhã em qualquer relógio para que se olhe agora e o sol brilha com toda a sua
luz e cor. O António, de Celorico de Basto, lavra a terra assertivamente já há
duas horas. O John “British” começa a receber telefonemas trabalhosos. A
Marrianne conta já, sem querer, três metros para chegar à faculdade. A
Teresinha turista viaja por onde sonhou ao ouvir histórias de encantar. E o
Pedrinho de 2 meses chora ofegantemente pela ausência da sua fonte de alimento.
Estão quase a
bater as doze badaladas diurnas para todo o Mundo, mas nem todos estão de acordo
acerca do grau de incidência do sol. A Maria Amélia, de uma “terrinha” qualquer
a norte de Celorico de Basto, desespera pela sua reforma na interminável fila
da segurança social. Os seguranças da rainha Isabel II sentem longinquamente o
conforto da cadeira da mesa do almoço. A Jaqueline adivinha já uma rutura no
músculo facial de tanto simpatizar com os visitantes do Museu de Louvre. O
Simão mais trabalhador do que turista observa Nova Iorque pela janela
entediante da sala de reuniões. E o pequeno Jing chora silenciosamente por não
saber até que horas terá que trabalhar.
Afinal, o que
é o tempo e o que é que ele faz com a verme condição de ser humano? O tempo
corre para quem o quer parar. O tempo para para quem o quer correr. Será que é
o tempo que nos deturpa ou somos nós que deturpamos o tempo?
São oito horas
da noite, aqui e ali. A lua ilumina os lúgubres caminhos de regresso daqueles
que já não veem o que emana do lampião. E parece que, como por magia, o tempo
inaugura o seu próprio equilíbrio, entrelaçando e invertendo as cores, o brilho
e as respetivas intensidades.
Sim, é noite,
mas é tão possível. Um arco-íris incandescente para quem o vê sem sol e sem
chuva como uma trovoada tenebrosamente ignescente: A Maria Amélia alegra-se
gritando ao ver o seu filho a chegar da guerra enquanto o António grita
chorando por não voltar a ver o seu. Os seguranças da rainha Isabel II
abandonam a apatia pela emoção do carinho da mulher, já o John “British” cria a
apatia ao reparar no abandono da amada. A Jaqueline, num simples jantar de
amigos, recebe a notícia de que é milionária e enquanto se via livre para realizar os seus
sonhos, nesse mesmo preciso instante, Marrianne via-se aprisionada debaixo do
metro. O Simão, no meio do turismo trabalhado, entrega-se ao spa do
leito mais próximo e a Teresinha trabalha contra o sono com receio dos
“monstros” turistas. Porém, o pequeno Jing continua sem saber quando parará, e
o Pedrinho ainda chora, pois ambos já sabem que há alimento que nunca vem.
Luzes. Cor.Tempo. Emoções. “E tudo e tudo e tudo” que pode acontecer enquanto pestanejamos
e que nunca vamos chegar a saber ou auxiliar porque não somos polvos. Seremos,
então, piores do que eles. Com a mesma “brandura” e “mansidão”, nem a incomum
qualidade do raciocínio nos fará tingir devidamente todos aqueles que se
cruzarão na esquina da nossa vida.

Já sabes o quanto adoro esta crónica. E a ti. Sabes o quanto te adoro a ti.
ResponderEliminarPõe o maximo de ti no pouco que faças! Publica, fala, divaga! Cá estaremos para te apoiar! Bjs
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